Indefeso Jornalismo, por André Marsiglia

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Foi-se o tempo em que tratar da segurança de jornalistas era uma preocupação dirigida a correspondentes de guerra. Nesses casos, resolvia-se a questão com o fornecimento de apetrechos como capacetes, coletes e uma etiqueta de identificação com os dizeres imprensa. Era o suficiente para que aos profissionais fosse conferida uma certa imunidade nos terrenos de conflito. Havia uma certa cerimônia para adotar a violência explícita contra eles.
Tudo isso mudou, e muito. Enquanto consultor jurídico da ONG Repórteres sem Fronteiras para o Brasil, tenho acompanhado de perto uma lamentável escalada de ataques cada vez mais violentos à imprensa por parte de leitores, do judiciário e de governantes. Se as credenciais profissionais antes eram uma espécie de salvo-conduto, agora parecem mais um alvo a receber o impacto do ódio.
Vivemos em um tempo sem tempo, em que as pessoas se informam sem ler, entendem sem pensar, acreditam apenas no que se parece com elas. Vivem dentro de suas bolhas e rodam em torno de seu ego narcísico, que se alimenta apenas daquilo que infla a bolha. O jornalismo não resiste a este mundo, não foi feito para ele. Os profissionais que se dedicam a afagar o público deixam de fazer jornalismo, migram para o entretenimento. Os que não fazem concessão são atacados.
Não agradar é um bom termômetro de se um jornalista está no caminho certo, porém o caminho certo é cada vez mais perigoso. Os ataques se tornam ainda mais covardes quando os profissionais de imprensa são também mulheres, negros ou atuam em locais afastados dos grandes centros, nos desertos de notícias localidades sem muita visibilidade, onde muitas vezes a voz do jornalista é a única e, claro, extremamente mais vulnerável.
Além do ataque físico, hoje em dia se enfrenta o ataque digital robôs programados para ameaçar, humilhar, constranger o profissional e seu trabalho. Ouvindo jornalistas que se encontram em situações como estas, o que mais escuto é quero desistir.
Dentre 180 países, a Repórteres sem Fronteiras reservou ao Brasil a vexatória 110 posição na edição de 2022 de sua classificação mundial da liberdade de imprensa. Se hoje o ranqueamento do Brasil é preocupante, será desastroso se os jornalistas desistirem. Sem o confronto de que vive o jornalismo, restarão as bolhas com sua voz monótona e autoritária. Restará muito pouco.

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